sábado, 26 de junho de 2010

Cilada!

Há pouco tempo atrás - mentira, muito tempo, desde que a gripe A, B, C, tanto faz, resolveu influenziar minha vida e me perseguir - eu, em uma de minhas muitas tarde livres resolvi ir ao cinema. Sabe como é, cinema é uma fácil escapatória quando a internet tá lenta demais e na TV tá passando Lagoa Azul pela milésima vez. Mas, como qualquer coisa na vida, o cinema pode ter seus inconvenientes. Na verdade, aquela foi a primeira vez a qual eu fui assistir um filme de comédia no cinema. E, analisando bem, o cinema pode ser um inferno.

Bom, por si só o cinema tem lá seus prós. A tela grande e sem nenhum possível rabisco - todo mundo tem na sua vida um pentelho que espera expandir sua veia Picasso na televisão dos outros -, a pipoca que não vai sujar louças da sua cozinha, o fato de que lá nenhum vizinho vai atrapalhar seu filme pra te pedir açúcar, sal, arroz, limão, seu varal, escova de dentes ou qualquer caralho a quatro, entre outros pontos positivos.
Mas não se iluda, a ida ao cinema pode acabar se tornando uma verdadeira
cilada.

Cilada 1: NA FILA.

É fato. Pra se dar bem no cinema você precisa chegar pelos menos uns 45 minutos antes da sessão. Isso quer dizer: você precisa se manter vivo lá dentro por 45 minutos. E, acredite, pode ser difícil. Ainda mais em um shopping. Shopping é uma daquelas coisas que mereciam ser estudadas a fundo. São todos os tipos e formas de humanos possíveis presos - juntos - dentro de uma construção de concreto. Chega a ser mágico.
Conclusão: provavelmente serão 45 minutos analisando os diferentes tipos de criaturas que vão aparecer na fila.

Estudando os diferentes tipos de freqüentadores de cinemas:

I) Abrasileirado: vulgos brasileiros. São os metidos a espertos, como bons filhos da puta dessa nação, que vão rodar a fila inteira procurando algum conhecido mais fdp ainda que esteja mais próximo da compra dos ingressos que ele, pra pedir um lugar na frente, assim, passando a perna no bom cidadão que mal come no almoço pra chegar a tempo pra sessão das duas.

II) Maria do Bairro: os que fazem questão de contar que a tia da filha do primo da vizinha do 512 ficou grávida do motoboy da empresa do irmão da prima da mãe do tio da vizinha da casa ao lado em voz alta o bastante pro cara que vende pastel na banca do outro lado do salão escutar. É incrível, mas o cidadão brasileiro tem mais interesse em saber do primogênito do vizinho, do que pra que bolso do senado o dinheiro suado dele vai acabar parando.

III) X9: são os que já vieram na sessão anterior e fazem a questão de contar o filme. 'Mas, cara, tu tem que ver a parte que o vilão enfia o serrote na barriga do cara e come as vísceras dele!'. Sinceramente? Eu acho que essas pessoas torcem pra que alguém, algum dia, se empolgue com a narração e contrate ele pra contar o filme ao invés de continuar na fila e ver o filme. Só pode.

IV) X9 Plus: esse é a versão piorada do X9 convencional. Porque ele não só conta o filme, como reclama de toda e qualquer coisa. Do vilão, da arma do vilão, do jeito de matar do vilão, do jeito de correr do mocinho, da guria que namora com o mocinho, da piada do meio do filme... Sabe o famoso professor mal comido? Então, ele é o tipo mal comido dos cinemas.

V) Joselito: propositalmente o Joselito foi o último. Último e o pior dos tipos. Bom, provavelmente, se você parar pra ver, o Joselito vai ser quase sempre o moleque sem cérebro da sua sala de aula. O cara que senta na última carteira, em alguns casos tá sempre chapado e seu propósito vai ser sempre encher o saco. O Joselito vai no cinema com o objetivo, nada mais, nada menos, do que de torrar tua paciência. E isso começa desde a fila até o fim do filme. O Joselito é aquele cara que você jura que, se não fosse realmente civilizado, ia encher a cara de bolacha até não poder mais.

Bom, pode demorar, mas algum dia a fila vai acabar, e a tão esperada vez de comprar o ingresso chega.
Mas é aí que você se engana.
Já ouviram falar do cartãozinho verde do cinema? Pois é, ele não é apenas uma lenda, ele existe. Pra quem não sabe, como eu não fazia a menor idéia que essa merda existia, o Cartão Movie Club, vulgo cartãozinho verde do cinema, é uma viadagem criada pra 'prestigiar a fidelidade do cliente'. Você compra o cartão e ganha mil e quinhentas vantagens. E uma delas é preferência na fila. Quer dizer, não importa se você fica duas horas na fila, passa fome, sede, frio, fica com dor nas pernas, se sente praticamente No Limite, o cartão verde vai foder com a tua vida, sem dó, nem piedade. É como se fosse um Abrasileirado com classe, um Abrasileirado da alta sociedade. Tu passa a perna nos outros, mas de um jeito menos descarado. A cena é a seguinte: você fica aqueles 45 minutos de praxe na fila, agüenta todos esses tipinhos, e quando você dá o primeiro passo... alguém simplesmente anda na tua frente e pede o ingresso. O pior de tudo, é que é de uma forma tão natural, que você fica na duvida se deve xingar ou não. Só fica lá, parado, com aquela cara de 'Que merda é essa?' olhando pro cara da frente comprando o ingresso dele. De verdade? Da vontade de chorar.

Mas, algum dia, com ou sem cartão verde, você vai acabar comprando o ingresso. Tu pode até se arrepender depois, mas tu compra.

Cilada 2: A COMPRA DO INGRESSO.

Já notou que as atendentes do cinema são quase sempre a imagem em carne e osso do que tu imagina ser as do Atendimento ao Consumidor? Se tu juntar a voz das atendentes do Atendimento ao Consumidor com a aparência animada das do cinema, tu fica impressionado. Só falta o 'Espere um momento. Tanãnãnãnã nãnã nãnã'. Parece até que, como elas tão ali vendendo o ingresso sem pode ver o filme, elas já decidiram, não importa o que elas tenham que fazer, elas vão fazer da tua vida um inferno. Não importa como. Elas vão fazer com que tu lembre da cara de ódio e desprezo delas ao longo de todo o filme.
Embora chegar na tua vez seja a parte mais difícil dessa trajetória, o ingresso em si não deixa por menos. O primeiro problema: o preço. Ok, não é nenhum absurdo, ninguém vende a alma pra conseguir comprar um ingresso nem nada. Mas, treze reais em um ingresso pra duas horas de filme?
São dez centavos por minuto! É como se o lanterninha viesse a cada 60 segundos com uma latinha pra você depositar sua moedinha lá. Dê mais valor às sua moedas douradas de dez centavos! Mas aí, eis que surge o milagre do meio ingresso. E surge também o segundo problema, interligado ele com as atendentes do Demo. A meia entrada, como todo bom freqüentador de cinemas sabe, é vendida para menores de 18 anos e estudantes. Aí que mora o problema.
A atendente olha pra tua cara, mastigando aquele chiclete saudável de gengibre onde o cheiro, mesmo com o vidro, consegue passar pelos três únicos buracos dele e chegar em ti, te dando o primeiro sinal: '
Corra.' Você o ignora. Grande erro. Na maior inocência tu pede meia entrada pra tal sessão. Dá pra sentir que nos olhos dela aquele fogo se alastrou e ela dá aquele meio sorriso 'Te peguei'. Ela olha pra ti com aquela expressão maligna e diz: 'Carteira de identidade, por favor?'. Ah, merda. Eu e minha carteira de identidade não nos damos muito bem, sabe como é. Ela prefere ter uma vida independente. Se algum dia o Silvio Santos aparecer na minha frente e oferecer 20 milhões pra todo mundo que apresentar a carteira de identidade pra ele, eu definitivamente não seria uma milionária. Isso acontece. Mas, vamos ser sinceros, eu mal aparento ter 15 anos, imagina 18. Mas aquela mulher acordou destinada a te foder a vida. Não adianta dizer que o cachorro comeu, que tu foi assaltada, que a identidade caiu no rio enquanto tu salvava uma criança recém-nascida, nada. 'Meia entrada só com apresentação da carteira, senhora.' E tu vê na cara dela aquela satisfação crescendo. Enquanto isso, o que cresce é a tua falta de paciência.

Cilada 3: O FILME.

Você já passou pelas etapas mais difíceis. A fila, a compra, enfrentou a atendente do Demo. Agora chega a parte proveitosa. Ou a pior delas.
Pense: na fila você ficou na presença de muitas pessoas indesejáveis, mas lá você podia correr quando desse na telha. Na sala de cinema você tá
preso. Você tem a saída de emergência e a saída por onde você entrou. Mas, depois de pagar 10 centavos por minuto, eu não sairia nem com incêndio. Só a sensação de estar preso lá dentro com aquele monte de gente estranha é uma cilada.

Fatores de cilada dentro da sala de cinema:

I) Lugares: você já passou por tudo isso. Fica crente que só pode ser um teste, pra ver se você tá realmente com vontade de assistir o filme. Logo, a recompensa deve ser monstruosa. Certo? Não. A sala do cinema é uma coisa interessante. Os bons lugares ficam da nona fila pra cima. Só tem da sétima pra baixo? Se fodeu. Pegou lugar, pegou! Não pegou, gastou dez por minuto de bobeira. Existem pouquíssimas coisas que demonstram mais a cilada em que você se meteu ao resolver ir ao cinema tão desagradáveis quanto entrar são e sair bichado com torcicolo. Aquela coisa gigante parece que vai te engolir. Aquelas cores todas te deixam de uma forma que, Deus, lá tu perde a vontade de ter uma TV de plasma na minúscula sala de casa. Aquele som infernal, no final, parece que vai te acompanhar até em casa, zunindo na tua cabeça. Duas horas depois ainda da pra escutar o tema musical romântico do filme. Além do que, na frente, a probabilidade de se virar um alvo dos Joselitos é imensamente maior do que a dos que ficam atrás.

II) Joselitos: não, o objetivo deles não é só ser desagradável na fila. O Joselito tem o incrível dom de conseguir ser inconveniente até dentro de uma sala escura. Toda sessão de cinema tem o Joselito que merece, e que trata o cinema como um espetáculo do Beto Carrero. Sendo ele, o próprio Faísca. O bom Joselito fala alto durante o filme, da gargalhadas exageradas em momentos impróprios, gasta - além dos 13 reais - sete e cinqüenta em uma pipoca a qual ele vai jogar nos outros, deixa o celular ligado, entre outras - muitas - coisas sem noção. O maior erro do Joselito não é ser chato, mas sim ter resolvido sair de casa.

III) Banheiro: ta aí uma coisa realmente desesperadora. Em qualquer lugar. Existe alguma coisa pior do que ficar com vontade de bater um papo com o rei, no trono, e isso não ser, por qualquer motivo, possível? Essa não é uma ordem que vem de ti, é superior! É uma necessidade biológica, teu corpo te domina e não tem pra onde escapar. Logo, se você pagou 10 centavos por minuto, você espera aproveitar todos os minutos, mesmo estando na primeira fileira com dez Joselitos atrás de ti. Mas aí bate aquela vontade superior, teu cérebro começa a mandar uns sinais suspeitos, começa a falar com teus órgãos por debaixo do pano; tu começa a ficar agoniado até que a coisa fica realmente feia. Aí é que começa o momento realmente tenso. É o momento em que você começa a se contorcer. Cruza a perna uma, duas, vezes. Estica as pernas, respira fundo, mas logo cruza as duas pernas em cima da poltrona de novo. No instante que as pessoas começam a notar é a hora que não tem mais como levar adiante. Essa é a hora que você mais prefere ter ficado em casa, sujeito aos vizinhos, podendo dar aquele 'Pause' aliviador. Mas não, você tá ali. Tu dá aquela última olhada pra tela, o mocinho beija a mocinha, e aí tu levanta, estufa o peito e vai. Provavelmente, até chegar no corredor, desviando das pernas alheias, andando agachado e agüentando os olhares mal encarados, são mais dois minutos. Mas tudo bem, você finalmente sai. A primeira coisa que acontece quando se sai, é sentir a mesma sensação que provavelmente se sentiu quando nasceu. Aquela luz vem de uma maneira pra cima de ti, que dá pra se pensar que é a bomba atômica. Nosso olho não demora pra se acostumar ao escuro, logo, não demora pra se acostumar à luz. Você vai no banheiro, usa, sente aquele alívio que só esse momento nos oferece e sai. Você se sente uma nova pessoa. Tudo bem, entra na sessão com aquele sorriso de 'sabia cantou pra mim' e se senta. Aí você olha a tela. Nesse momento o mocinho está sendo espancado pela mocinha. E aí você se pergunta: 'Por que diabos eu levantei minha bunda daqui?'. Sabe o que é pior? É que na maioria das vezes, a Lei de Murphy faz questão de entrar em ação, e logo aquele momento - que você perdeu - era O momento do filme. E você não vai entender mais merda nenhuma depois daquilo.

O banheiro tem seus dois ângulos. O primeiro é quando acontece contigo, o que já é uma baita cilada, mas o segundo ângulo consegue vencer o primeiro. Existe também a possibilidade de isso acontecer com o cara do lado. E se isso acontece com a enguia do lado, meu amigo, você arranjou um baita problema. Primeiro, o fato de ter uma pessoa se contorcendo do seu lado. O que já não é agradável. Depois, pessoas sem noção existem. E, surpreenda-se: eles freqüentam os mesmos lugares que você. Sim, ele vai virar e vai te fazer aquela tão temida e repugnante pergunta: '
O que aconteceu?' E não tem sorriso amarelo que te salve.

IV) Casais: que me desculpem os apaixonados, mas, existe alguma coisa mais broxante do que casal apaixonado no cinema? Talvez esse seja um fato de cilada mais desagradável que os lugares. E não, não é inveja, não é coisa de gente mal amada, não é ciúme, é um simples fato! Casais apaixonados naturalmente são chatos. Pelo menos nos primeiros dois meses, que é a fase de bem com a vida de um namoro, onde o casal perde totalmente o bom senso. Aqueles apelidos no diminutivo, beicinhos, carinhas fofas, falas prontas de filmes, agarramentos. Argh! Nesses momentos a gente preferia ter um botão e apagar essas cenas da mente. Sim, casais no cinema são broxantes. E ponto.

IV) Risadas: já ouviram falar que gosto é igual cu? Pois é, risada também. Cada um tem a sua e, como o cu, deveria guardar pra si. Isso é uma coisa que se particulariza, mas não só, a filmes de comédia. Cada um tem seu tempo pra entender piadas, seu próprio senso de humor, não da pra regularizar isso. Não é confortável agüentar, nem participar. Começa por risadas fora de hora. É ruim ser a pessoa que ri, tanto quanto ser a que escuta aquela risada solitária. E o mais importante: risadas são particulares! Cada um tem a sua. É constrangedor mostrar a sua, assim, pra quem nem se conhece.
Por isso filmes de comédia não são bons lugares pra um primeiro encontro. Tudo muito bem, tudo muito certo. Até a hora que ele riu. Tu mal conhece ele, vai querer escutar essa risada pelo resto da vida?
[ ] Ficar / [x] Fugir
É, amigo, não foi uma boa escolha.

Percebeu? O cinema pode acabar sendo a maior cilada do seu dia.
Quer saber? Eu fico com Lagoa Azul e internet lenta mesmo.

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Ao som de: Nós Vamos Invadir Sua Praia - Ultraje a Rigor.

Nota: Originalmente postado em 17 de agosto de 2009.

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