sábado, 26 de junho de 2010

Cinzento

A quilômetros das alegres e abundantes praias da zona rica do Rio de Janeiro, o sol já havia se posto há muito tempo nas ruas sombrias da periferia. Dos dez postes de iluminação, três já haviam desistido de tornar a rua um pouco menos nebulosa, e cinco ficavam apagando e acendendo. As noites, em sua maioria, eram banhadas por vigílias de helicópteros que sobrevoavam a região de tempos em tempos, o que não a deixava ser totalmente escura, nem clara o bastante para ser considerada menos assustadora. Numa cidade considerada ensolarada, aquela região era cinza.
O carro antigo de aparência velha, (mal) estacionado quase sobre a calçada parecia estar estagnado ali havia muito tempo. Seus pneus, nunca trocados e gastos pelo tempo, roçavam suaves o meio-fio, ocupando quase toda a passagem da rua. O silêncio absoluto da ruela fazia da cena, uma fotografia perfeita de filme. Perfeita, até que o som estridente da buzina rompeu de dentro do carro. - Droga. - Disse o condutor, enquanto voltava do sonho à realidade, sentindo o café - até então firmemente seguro em suas mãos - penetrar o tecido do banco.
"Maldito emprego. Maldita hora." Esfregou seus olhos enquanto olhava o relógio analógico pregado no painel escuro do carro. 1h33 da manhã. Maldito tudo. Seus olhos, por instinto se fecharam novamente. Dessa vez foi o walk-talk preso à sua cintura que o fez acordar com o barulho de estática. - O que foi, Willy? - sua voz áspera irrompeu a escuridão. Ia muito de acordo com sua aparência, áspera. Coçou sua barba por fazer. Que, pelo menos dessa vez, não fosse alarme falso, queira, Deus. - Eu não demoraria se fosse você. Parece que dessa vez vai ser das boas. - Um sorriso, que mais parecia uma careta de dor, inundou suas feições duras e frias, e sua mão se agarrou à chave de ignição. O rugido do carro cortou o vento, e as marcas da aceleração tatuaram o chão da rua. Não demorou até que chegasse ao ponto da confusão. Não que ele conhecesse a região, na verdade, nunca passara de um restaurante italiano que havia no início da zona sul. Um restaurante mais caro do que usualmente poderia pagar, em geral. Mas não era difícil descobrir onde deveria ir. A confusão se alastrava até o final da rua, e o sorriso macabro ainda não havia suavizado em sua expressão quando o carro parou do outro lado da rua, de frente a uma boate. A música alta penetrava seus tímpanos, acostumados até então com o silêncio absoluto. Mas não era a música que chamava - e prendia - a atenção das pessoas na rua. O emaranhado de corpos que se postava no meio da rua principal "dançava" uma espécie de coreografia diferente, brutal, quase um ato folclórico, se não houvesse sangue envolvido. Sangue. Só o pensamento o fez se arrepiar. Não era a parte que ele mais gostava. Os integrantes que compunham a cena eram distintos. Como se fossem dois grupos formados com antecedência para uma rodada de luta livre. Na prática, aparentava ser uma luta livre... no meio da rua, sem regras e que não cessaria até ter pelo menos uma daquelas cartas fora do baralho. Fácil assim, como se fosse um jogo. Os olhos fascinados de repórter de meia idade foram desviados assim que um impacto no capô fez o carro dar um solavanco. O mais assustador ainda foi o rugido feroz, quase animal, vindo do espectro que havia sido arremessado contra o carro. Ele agora se levantava, enfurecido demais para reparar outra coisa em sua volta. Seus músculos do braço, flexionados, agora se endureciam por baixo da sua camisa rasgada. Sua jugular pulsava a olhos nus. Sem consequências, ele se atirou em direção ao agressor, batendo com sua cabeça, na cabeça do outro. Não demorou até o sangue pulsar, vívido, do talho na cabeça do menino. Ele não aparentava dor. A dor se transformava automaticamente em mais ódio. Garotos como aquele não podiam se dar ao luxo da dor. A dor é pra quem tem direito de senti-la. Não era o seu caso. As coisas aconteceriam como um ciclo, até que alguém se cansasse e desistisse de vez. Desistir, naquele caso, não significava a bandeira branca, ou uma trégua. A desistência, nessa região do mundo, significava a morte.
O coração do repórter, que agora já estava colado ao vidro embaçado, batia ao ritmo dos socos e pontapés da cena. Uns metros à frente do incidente da cabeçada, outros garotos do mesmo tamanho se debatiam, e se batiam com uma força incrível. Os pingos de sangue já eram tão comuns quanto as gotas de chuva que caíam agora, adocicadas, lavando a rua manchada de vermelho. Os combatentes da guerra privada já não tinham mais forças para se erguer, muito menos para continuar a briga. Mas mesmo assim, nenhum deles baixava a guarda. Mesmo entre todos os gritos ferozes, a música alta e todos os outros uivos, o som mais angustiante foi o baque seco de um corpo inerte, sem vida, batendo contra a pedra fria. Na cidade do Cristo, esperto, afinal, era quem não deixava o julgamento nas mãos Dele.

-
Nota: Originalmente postado em 27 de março de 2009.

Nenhum comentário: