sábado, 26 de junho de 2010

Tese da fé (des)humana

Fato 1: Nós morremos.
Fato 2: A vida é cansativa, dura, e trabalhosa, e só então, nós morremos.
Fato 3: Acredito que 80% da população vive na espera da, até então incontestável, pós-vida.
Fato 4: Desses 80%, ainda por minha visão, 1,1% já supôs que talvez, esse mundo paralelo cheio de arco-íris e fadas, não exista.
Embora esse 1,1% não tenha pensado a respeito por mais de um minuto.

Tudo a troco de quê?

Enfim, a teoria básica da minha tese sobre a fé deshumana é que os seres humanos precisam de uma imagem – enganosa ou não – em quem terem fé. Todos os seres racionais – nem sempre pensantes – têm pavor de não terem em quem depositar sua confiança, além de uma profunda angústia de levarem a culpa pelos objetivos não concluídos. Embora, eles mesmos não tenham a menor fé em si mesmos. O pensamento de um ser maior, potente, imortal e incontestável, oferece garantia, a confiança de que qualquer erro, então, é um acerto.
Será que a sociedade realmente evoluiu, ou será que a única mudança desde a Idade das Trevas foi a implantação do capitalismo? A igreja, mesmo com o aumento de hereges, continua sendo a – não mais única – incontestável fonte da verdade e merecedora de confiança.
Após um longo e cansativo dia, em meio a um turbilhão de pensamentos que invade minha cabeça periodicamente, me peguei pensando a respeito disso. Qual o significado da existência? As coisas não podem ser tão simples, nem tão banais. São três teorias básicas que todos os mortais já ouviram pelo menos uma vez na vida:
Primeira teoria: nós nascemos, nos reproduzimos e morremos. Um ciclo cansativo e sem nexo. Conservamos uma espécie para que daqui a poucos anos ela conserve a dela, e assim repetidamente até que algo aconteça. Infelizmente, o algo nunca aconteceu, então, não fazemos a menor idéia se o ciclo algum dia parará. O que nos leva à segunda teoria: a vida eterna. Que nos faz fantasiar a famosa cena do senhor de barba branca sentado dentro de uma guarita solidificada nas nuvens, controlando a abertura de um portão cor de bronze que nos levará ou a atmosfera branca e pura que se imagina ser o céu, ou ao mundo temidamente vermelho e quente, o inferno. De qualquer forma, ainda existe uma terceira, e mais aclamada: a ressurreição. Mas como já foi dito, não pode ser tão simples. Quando uma pessoa se cansa da vida, ela simplesmente dá um restart e começa do zero?
A maioria das pessoas
(vulgo eu) vive um incrível dilema entre o ‘viva como se fosse morrer amanhã’, e o termo ‘reencarnação’. Se há uma reencarnação, por que diabos viver como se a vida fosse única? Aproveitemos então os detalhes que a vida nos da direito, degustemos-la, sem pressa, sem pressão. Sem impulsividade.

"O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?"
Clarice Lispector.

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Ao som de: Fake Plastic Tree - Radiohead

Nota: Texto originalmente postado em 28 de Março de 2009.

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