sábado, 26 de junho de 2010

Horizonte sem fim

Chuva: abundância; água que cai em gotas da atmosfera;
Ela não caiu em gotas. E a água, pura, que despencou dos céus, não lavou a alma de quem a sentiu, levou, consigo, a sua esperança.
Após uma semana onde o que castigava era a abundância do sol, os primeiros pingos com sabor adocicado caíram do céu, leves. Passou-se assim o primeiro dia; segundo, terceiro... passou-se o qüinquagésimo quarto dia, e a chuva, mártir do lavrador que mora no Nordeste, era aqui, o começo do apocalipse interno.
Terra: parte sólida da superfície do globo;
A terra não era mais sólida. A terra era lama. A cidade era lama. Uma cerâmica recém destruída, desmantelada, sendo aos poucos moldada por mãos invisíveis, formando um cenário frio.
A cidade se assemelhava a olhos vazios sem expressão. Sem vida. Sem cor. A avalanche de terra não soterrou apenas o duro concreto das casas por onde passava, destruiu também a alma de quem a via se afastar. A atmosfera laranja, ensolarada, havia sido agora trocada por uma outra, sombria, silenciosa... melancólica. As nuvens ainda pairavam sobre a cidade, baixas e opressoras. Contemplávamos todos a mesma cena. Todos os olhos, de diferentes pensamentos e opiniões, agora compartilhavam juntos a mesma dor. A dor de quem não tinha mais pelo que lutar, ou por quem lutar. Dor de quem tentava achar em estranhos, a ânsia pela renovação.
Seriam essas, conseqüências criadas por nós mesmos? Então a renovação seria contra quem? A triste realidade, é que o grande “Nemesis”, afinal, está dentro de nós.
O Vale já não era mais um vale, era um horizonte sem fim, que, fazendo-nos voltar aos tempos antigos, nos faziam perguntar se depois de tudo aquilo, existia mesmo terra adiante. As noites eram escuras e silenciosas, e os dias, cinzas. Ao olhar de quem se acostumara a ver a cidade como campo de flores representado em seu brasão, ela se tornara quase um campo de guerra, a nova Guerra Fria, Natureza vrs. Humanidade.
Despertou-se então a amarga volta à vida cotidiana, modificada, atroz. Com um agora lacerante aperto no coração todos nós lutaremos em função da volta. O trabalhador terá de ser mais eficaz, o desabrigado paciente, a sociedade mais unida. Talvez demore a passar o tempo necessário para termos novamente a boa e velha Blumenau, mas o tempo e a energia que gastarmos, será, um dia, recompensada pela volta do sorriso ao rosto do blumenauense. Esperamos, enfim, que as sementes que plantarmos, reconstruam nosso campo de flores.

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Nota: Texto em homenagem aos desastres de novembro de 2008.

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