domingo, 27 de janeiro de 2013

A Morte é Vírgula.



De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo
(...)
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço
Meu tempo é quando.
(Vinícius de Moraes)

A fumaça que enegrecia a cena formava desenhos desconexos. Logo, o manto negro casava-se à situação, tão desconexa quanto sua arte amuada, e sorrateiramente embargava a visão dos que tentavam compreendê-la. Com um véu de finas teias, o céu, que ganhava aos poucos novas estrelas, foi o primeiro a entrar em luto. Em meio à incoerência dos fatos, futuro, passado e presente uniam-se agora num só tempo, que vedava a visão dos que deitavam em descanso eterno e enchia de mais incompreensão um quadro que estava longe de ser entendido por quem o via de longe.

A cena agora se assemelhava a olhos vazios, sem vida e sem cor. A atmosfera laranja que emoldurava, foi trocada por outra, sombria e silenciosa. Brutal. As chamas alaranjadas que atropelaram vidas haviam passado sem pedir licença, nem permissão. Nem a água que descia no ímpeto de barrar sua brutalidade, nem as gotas que desciam salgadas e silenciosas pelos rostos inocentes pode conter sua ira. As chamas levaram consigo o que puderam, sem se importar com o justo, ou o injusto. Levaram sonhos, esperanças, futuros, levaram um “bom dia” que nunca mais será dito e o “boa noite” que se tornou definitivo. Levou o beijo da mãe, o abraço do pai, o conselho do avô, o adeus do irmão. O sorriso da cidade. O sorriso da humanidade. Levou a sensatez.

Hoje, em meio aos escombros de futuros que pararam no presente, mas que nunca serão passado, o mundo perde sua graça e se transforma numa peça preta e branca, como um filme antigo que passa pelos olhos. Uma pintura de luto. O que nos asfixia não é a fumaça, nem os escombros, mas sim a falta da vida. A falta dos planos e a falta dos sonhos que a legião de anjos de Santa Maria deixou em branco... ou em preto. A vida se provou frágil e a morte se mostrou súbita. Poderíamos ser nós. E morremos todos um pouco. Jabor disse que a Morte não está nem aí para nós e, talvez, esteja certo, mas a Vida, essa é uma grande solidária que se desgasta a cada toque errado do coração. E hoje, a vida se esvai de todos e deixa um rastro de dúvida. Como morrer num dia assim, com um céu assim?, perguntou Olavo Bilac. A legião de Santa Maria respondeu: tirei a cor da Terra para iluminar o céu novamente e, hoje, meu futuro é a eternidade.

Enquanto o céu volta a se encher de luz por conta de suas novas estrelas, a Terra fica assim, escura. E com o silêncio do coração, bradamos: estamos de luto.

“O cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula ou ponto final.”
E ela é vírgula.
A solidariedade de todos os corações os eternizaram. 

Uma singela homenagem ao exército de anjos de Santa Maria. Que seu brilho fortifique e acalente os corações que choram. E que o céu esteja em paz. 

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